Arquivo mensal: abril 2016

Por trás de símbolos e cores, padronização e história: uma viagem pelo mundo das bandeiras nacionais

Por Eduardo Klein

Listras e faixas, estrelas ou brasões. Em todo o mundo, um dos elementos mais representativos dos países é a bandeira. Não apenas entre as nações! Estados, municípios, condados e outras estruturas regionais que variam de país para país também podem contar com bandeiras próprias, aumentando consideravelmente o número dessas em uso e circulação.

 

Embora a proposição e a criação de bandeiras se alternem de acordo com a legislação aplicada em cada país, os padrões que dizem respeito ao design e à construção, propriamente dita, dos também chamados pavilhões, ganharam uma área própria de estudos em 1957. Trata-se da Vexilologia, que buscou em um prefixo originário do latim e correspondente à bandeira – vexillum – um termo que abrangesse a análise e discussão sobre o simbolismo, uso e história de bandeiras em todo o mundo.

 

Desde então, a Vexilologia passou a ser o centro dos estudos relacionados a bandeiras nacionais ou institucionais, históricas ou não, concentrando-se em uma entidade em nível global, a Federação Internacional de Vexilologia (ou Fédération Internationale des Associations Vexillologiques – FIAV). Ela, por sua vez, agrega outras 52 associações igualmente dedicadas a desenvolver um conhecimento científico sobre os tipos, formas e funções das bandeiras em todo o  mundo.

 

Elementos que estruturam uma bandeira

Uma vez que a Vexilologia aborda o estudo das bandeiras, por vexilologista entende-se o responsável por desenvolver graficamente esse tipo de representação. No processo de criação de uma bandeira, ele utiliza de uma série de elementos visuais organizados em categorias observando, ainda, um conjunto de denominações voltado ao futuro emprego da peça. Elas se dividem em 19 tipos que, combinados ou não, relacionam-se ao uso terrestre ou marítimo e em nível civil, institucional governamental ou público, somado ainda ao uso militar. Essa normatização foi desenvolvida pelo professor Whitney Smith, a quem também se atribui a criação do termo Vexilologia

 

Entre os outros padrões em uso estão as Cruz Simétrica, Cruz Grega e Cruz Escandinava, variando a formato cruzado quanto à proporção e disposição na bandeira. Há ainda o chamado Chevrons, caracterizado por um triângulo posicionado à esquerda, o Pall e o Saltire, ambos com formas geométricas próprias. Outros exemplos são as variações retangulares na vertical, chamado de Pales ou o Fesses, com bandeiras organizadas em faixas horizontais:

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Vale ressaltar que entre os 195 países do mundo, mais da metade das bandeiras foram criadas com base nos padrões retangulares Pales, Fesses e Chevrons, além de duas variações desses três formatos, a bend, caracterizada por um corte na diagonal, e pavilhões de duas cores com uma divisão no centro. São exemplos desses as bandeiras da Tanzânia e da Papua Nova-Guiné, como bends, e as bandeiras da Polônia e de Angola, no fesses de duas cores, dividida ao meio.

As bandeiras, em extensão, podem obedecer também a sete padronizações de organização como o Badge, representado pelo uso de símbolos como brasões ou escudos de armas; o Charge, cuja característica é possuir uma figura; além do Emblem, que indica o uso de um símbolo mais representativo do país ou entidade em questão. Várias bandeiras como a do Uruguai, dos Estados Unidos e da Austrália, por exemplo, usam do recurso chamado Canton, em que o desenho quadrangular da bandeira é dividido em quatro partes, sendo que uma delas será mais destacada, usualmente o quadrante ao alto e à esquerda:

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PADRONIZAÇÃO – Exemplos de Badge, Charge, Emblem e Canton: Albânia, Alasca, Argélia e Uruguai, respectivamente, da esquerda para a direita.

Em alguns casos dois ou mais padrões podem se combinar dando forma a uma só bandeira. Além de pavilhões que representam um único país, há aqueles em que a união de dois ou mais formam um só organismo como é o caso do Reino Unido, cuja bandeira oficial representa a junção daquelas dos países que o integram: Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte. No entanto, note que essa última não serviu de base, graficamente, para a constituição da Union Jack, como é chamada a bandeira do Reino Unido:

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Formatos, símbolos e cores

Apesar de apenas o Nepal possuir uma bandeira que não segue o padrão quadrangular tradicional, os demais 194 países do mundo seguem esse formato geométrico, porém, com proporções variadas em sua medida. Considerando o padrão 1:1, no qual a largura da bandeira será igual ao comprimento, dados da FIAV apontam como a escolha mais comum o padrão 2:3, adotado por 86 países, seguido do 1:2, presente em 54 bandeiras de estados nacionais. O formato 1:1, por sua vez, só foi adotado por duas nações, na mesma quantidade que o formato 7:11. A bandeira do Brasil, por exemplo, segue a proporção 7:10, ao mesmo tempo em que a bandeira de Andorra, pequeno país situado entre a França e a Espanha.

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PROPORÇÃO – Observa a variação na área proporcional entre essas bandeiras. Da esquerda para direita: Vaticano (1:1), Portugal (2:3), Nova Zelândia (1:2) e o Nepal (0:820). O padrão usado em Portugal é o mais comum em todo o mundo, seguido do 1:2 adotado pelo país da Oceania.

 

Outros pontos em comum entre o grande número de bandeiras nacionais ocorre na simbologia e nas cores usadas em cada pavilhão. Uma estatística entre os 195 países do mundo aponta que o símbolo mais dominante é a estrela. Em conjunto, num padrão organizado, como na China, ou  refletindo diferentes constelações, tal como ocorre na bandeira do Brasil, ou mesmo com uma única estrela – adotado em Israel e Gana – o uso de estrelas é destaque em 60 bandeiras, ou seja, aproximadamente 31% dos países.

Escudos ou brasões nacionais, prática comum entre nações europeias como Portugal, San Marino e Moldávia, além de países em diversos pontos do mundo como o México, na América do Norte; Moçambique, na África; e Fiji, na Oceania, representam a segunda categoria mais comum na simbologia em bandeiras. Já o uso de cruzes, seguindo ou não os formatos genéricos Simétrico, Grego ou Escandinavo, está presente em 18 pavilhões de nações independentes, embora se repita com mais frequência em territórios ou possessões de outros países, ainda sem autonomia, como é o caso das Ilhas Falkland (Malvinas), pertencentes ao Reino Unido, e a ilha de Niue, que integra o território da Nova Zelândia.

Os corpos celestes são elementos comuns, sobretudo entre países de maioria muçulmana. Malásia, Tunísia e Turquia possuem a representação da Lua na fase Crescente, uma simbologia venerada no Islã, em suas bandeiras. No entanto, Arábia Saudita e Irã, por exemplo, adotaram símbolos próprios, igualmente ligados à cultura local, eminentemente islâmica, sem recorrer ao uso do Crescente nos pavilhões. Por outro lado, a representação do Sol encontra-se de forma variada em bandeiras de países como a Argentina, Japão e a Namíbia.

Além disso, uma análise geral de todos os pavilhões nacionais revela uma utilização de combinações de cores que se repetem de forma aleatória ou mesmo coordenada segundo blocos de países que levam em consideração fatores como a religião. De forma mais ampla, nota-se uma predisposição para o uso do vermelho, azul, verde e branco como cor básica, totalizando, respectivamente, 31, 28, 11 e oito países. Além disso, entre as combinações de cores, destacam-se a adoção do trio vermelho-branco-azul, muito comum entre países europeus, tais como a Holanda, França e Rússia, bem como a gama entre preto, vermelho, branco e verde, presente em nove países concentrados no Oriente Médio e na Ásia Central.

Com relação à primeira combinação, um ponto em comum são os países de origem eslava que adotam, ao mesmo tempo, bandeiras semelhantes do ponto de vista das cores e no padrão fesses, buscando nos pavilhões valorizar a herança étnico-linguística. A escolha dos tons de azul, branco e vermelho remonta ao Congresso Eslavo de Viena, realizado em 1848, e que oficializou a bandeira de base à causa, inspirada naquela do Império Russo e hoje retomada pela atual Rússia, pós-União Soviética. As cores do Pan-eslavismo também foram a marca maior da Iugoslávia, cujo nome significa união dos povos eslavos. Dos países que surgiram após a fragmentação dela, metade decidiu não manter o padrão fesses e as mesmas cores nas respectivas bandeiras: Bósnia Herzegovina, Montenegro e Macedônia.

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PAN-ESLAVISMO – Embora o padrão de cada bandeira não seja o mesmo, os países eslavos buscaram nas cores do movimento Pan-eslavismo um esforço de identidade que se vê hoje nas bandeiras de alguns países no leste europeu.

 

Outro grupo de países que possuem bandeiras com cores combinadas são os do mundo árabe, influenciados diretamente pelos pavilhões de dois movimentos separatistas na região. O primeiro deles foi Revolta Árabe contra o Império Otomano, em 1916. À ocasião, os líderes criaram uma bandeira usando quatro cores ligadas a grupos de poder locais séculos antes. Dessas, a mais simbólica é o preto, cor da bandeira de Maomé, mas também utilizada pelos califados de Rashidun e dos Abbasidas. O verde representou o Califado de Fatimid ao passo que o Califado de Umayyad tinha a bandeira predominantemente branca. Já o vermelho simbolizava a bandeira dos Khawarij, embora durante o levante também se relacionasse à dinastia Hashemita, hoje no poder na Jordânia por meio do Rei Abdullah II.

Anos depois, em 1952, uma revolução no Egito visando a derrubada do poder do Rei Faruq, reformas na constituição em vigor e o fim da ocupação inglesa na região, com o reforço de um crescente sentimento nacionalista e de união entre os povos árabes, teve como símbolo a Bandeira de Liberação Árabe. Ela manteve as cores representativas da Revolta de 1916, mas além de eliminar o verde, atribuiu ao preto, ao branco e ao vermelho os significados de opressão histórica por nações estrangeiras, o futuro da região e o sacrifício para uma transição pela independência, respectivamente. Essa nova padronização influenciou a bandeira de países como o próprio Egito, Iêmen, Iraque e Síria, que chegaram a substituir os antigos moldes por pavilhões inspirados na antiga causa.

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PRIMEIRO MOMENTO – A criação de um estado árabe que se estenderia da atual Síria até o Iêmen, no sul da Península Arábica, estava entre os objetivos da Revolta Árabe de 1916. Apesar de ele não ter sido viabilizado, vários países que hoje integram a mesma região adotaram as cores desse levante, em um paralelo aos anseios de uma integração.

 

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SEGUNDO MOMENTO – Vários países optaram por readaptar as bandeiras em uso a partir de 1952, adotando pavilhões com as cores da Bandeira de Libertação Árabe, símbolo da Revolução Egípcia no mesmo ano, o que reacendeu o espírito do pan-arabismo no Oriente Médio e, no caso do Egito, ao Norte da África.

 

Outros movimentos em caráter internacional e que defendem a união em bloco de diferentes países mas que guardam semelhanças e pontos em comum na matriz étnico-linguística, histórico ou mesmo cultural, tais como o pan-africanismo, também têm as bandeiras em combinações de cores semelhantes, sendo cada uma com significados próximos. Nesse último caso, a opção é pelo vermelho, verde e amarelo, presente na maior parte dos países da África-subsaariana, tais como Gana, Etiópia e Camarões e em algumas ilhas no Caribe. São Cristóvão e Nevis é um desses exemplos.

E se os continentes tivessem bandeiras?

O estúdio ferdio, especializado em design gráfico, desenvolveu um projeto sobre as atuais bandeiras em uso pelos países e, unindo os elementos mais comuns na padronização do desenho e simbologia nelas empregada, propôs a criação de cinco bandeiras relativas aos continentes da América do Sul e América do Norte – integrando a essa os países da América Central e Caribe – África, Ásia e Europa. O resultado mostra uma combinação interessante que se assemelha à maior parte dos padrões de bandeiras nacionais reunidas de maneira continental:

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Adaptado de: ferdio

Dos 55 países africanos, o estúdio contabilizou 25 emblems na forma de estrelas – o que pode ser encontrado nas bandeiras de Togo e da Somália, por exemplo – com o predomínio do padrão fesses de três faixas na horizontal. Com a maior parte dos países também adotando a combinação de vermelho, verde e amarelo, correspondendo ao pan-africanismo, a hipotética bandeira da África se assemelharia à de Gana, localizada no mesmo continente.

Uma análise de o que seria a bandeira da Ásia aponta para a grande quantidade de países de maioria muçulmana no continente, tais como a Indonésia, que o ocupa o posto de maior nação islâmica do mundo, além daqueles nas regiões do Oriente Médio e da Ásia Central,  onde, respectivamente, a Arábia Saudita e o Irã são grandes expoentes das correntes Sunita e Xiita. Tal contexto é evidenciado pela simbologia do Crescente, disposta em sete bandeiras da região, e de uma ou mais estrelas, encontradas em outras 15. Assim como a África, o padrão mais comum são as faixas horizontais em fesses.

Já o continente americano, subdividido politicamente entre as américas do Sul, do Norte e Central, associada às ilhas caribenhas, foi representado em dois grupos. Aquele dedicado às 13 nações da América do Sul ganhou uma bandeira em que os traços predominantes remontam ao que o estúdio denominou como “Miranda”. Trata-se da combinação entre amarelo, azul e vermelho, no padrão fesses, facilmente vista nas bandeiras da Colômbia, Equador e Venezuela, e que estão ligadas ao revolucionário venezuelano Francisco de Miranda, precursor de Simon Bolivar no processo de independência de boa parte das antigas colônias espanholas no continente no Século XIX. A esse padrão, segue o uso de uma estrela como emblem, correspondente aos pavilhões do Brasil, Chile, Suriname, Venezuela, em maioria ante ao uso de badges ou brasões, como na Bolívia e no Equador.

A América do Norte – aqui englobando a América Central e o Caribe – tem uma bandeira no padrão pales, com faixas na horizontal, apresentando-se com uma característica marcante entre os pavilhões da América Central: a combinações azul-branco-azul, como pode ser encontrada nas bandeiras de El Salvador, Guatemala e Honduras. México e o Canadá também apresentam o mesmo padrão, porém em outras cores. A simbologia empregada, com um badge, buscou unificar outros elementos comuns entre as bandeiras dos 22 países, como a presença de listras.

Comum entre 17 bandeiras dos 48 países europeus, o padrão fesses foi o escolhido pelo estúdio para representar o continente. A ausência de símbolos, característica presente em 20 bandeiras que apresentam ou não as faixas horizontais, também é marca da bandeira europeia, com as cores na combinação vermelho-branco-azul. Essas podem ser vistas nos pavilhões da Croácia, França, Eslováquia, Eslovênia, Holanda, Inglaterra, Islândia, Luxemburgo, Noruega, República Checa, Rússia e Sérvia.

A oceania contaria com uma bandeira marcada pelo canton com a Union Jack, bandeira do Reino Unido, simbolizando a atuação de exploradores britânicos na região sobretudo no Século XVIII. Cinco dos atuais países independentes da região foram possessões de Londres até que ganhassem autonomia e se separassem do domínio da Coroa. Desses, quatro ainda mantém as bandeiras o canton britânico: Austrália, Fiji, Nova Zelândia e Tuvalu. Outra característica encontrada no pavilhão da Oceania são estrelas ordenadas segundo diferentes intenções: Austrália, Nova Zelândia, Papua Nova-Guiné e Samoa têm a constelação do Cruzeiro do Sul como símbolo nacional. Por outro lado, os Estados Federados da Micronésia, Ilhas Marshall, Ilhas Salomão e Tuvalu dispuseram estrelas indicando a quantidade de ilhas e atóis presentes em cada um de seus territórios. Já Nauru usa uma estrela de 12 pontas simbolizando o mesmo número de tribos que habitavam inicialmente o país, restrito a uma só ilha. Ao todo 64% das bandeiras do continente, entre a Australásia, Melanésia, Micronésia e Polinésia, tem estrelas como recurso simbólico.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CASTRO, Iná Elias de. Geografia e Política: território, escalas de ação e instituições. Rio de Janeiro. Bertrand Brasil. 2005. 298p.
DENSON, J. BACHELLER, M.A., et al. The Five Worlds of Our Lives: ingredients and results of war and revolution. A Geohistory. New York City. Newsweek, Inc. & C.S. Hammond & Co., Inc., 1961. 320p.
SIMIELLI. Maria Elena Ramos. Geoatlas: edição reformulada e atualizada. São Paulo. Editora Ática, 2006. 168p.
SMITH, Dan. O atlas do Oriente Médio: o mapeamento completo de todos os conflitos. São Paulo. Publifolha, 2008.144p.
ZNAMIEROWSKI, Alfred. The World Encyclopedia of Flags: the definitive guide to international flags, banners, standards and ensigns. Leicester. Lorenz Books, 2013. 256p.
SITES CONSULTADOS
Central Intelligence Agency – The World Factbook
Estúdio ferdio – Continent Flags
Federação Internacional de Associações Vexilológicas
Flags of the World
Organização das Nações Unidas
Portal de Governo da República Árabe do Egito
Portal de Governo da República Árabe da Síria
Portal de Governo da Comunidade da Australia
Portal de Governo da Nova Zelândia – The NZ flag: Your chance to decide
Portal de Governo da República de Nauru
Portland Flag Association – “Finalists” for New Fiji Flag

A história dos antípodas: conheça, precisamente, o outro lado do mundo

Por Eduardo Klein

O que aconteceria se abríssemos um túnel sob os nossos pés com a intenção de chegarmos ao outro lado da terra?
Por várias vezes, especialmente quando crianças, nos deparamos com essa ideia que, por mais fantástica que possa parecer, revela-se inviável. Afinal, estamos falando de uma travessia pelas camadas internas do planeta, passando por temperaturas estimadas em até 5.400ºC no núcleo interno, sem contar com variações extremas de pressão e os efeitos de outros fenômenos como forças gravitacionais e outras dinâmicas existentes no interior da Terra.
No entanto, é verdadeira a afirmação de que existe uma localização terrestre precisa e exatamente oposta àquela em que nos encontramos. Isso pode ser explicado pelas propriedades do formato terrestre, o geóide. Embora a circunferência se aproxime mais do elipsóide, sólido utilizado para representar de maneira aproximada o planeta, em ambas as referências geométricas é possível traçar uma linha reta entre dois pontos em quaisquer lados opostos da superfície.
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Projeção que demonstra a correlação entre os continentes e oceanos com os respectivos antípodas. Observe a posição relativa entre o sul da América do Sul abrangendo o Chile e a Argentina, e boa parte do leste da China.

Dessa forma, voltamos à ideia do túnel que, em tese, corresponde a um traçado interno no planeta, conectando duas localidades em terra firme ou no mar e diametralmente opostas. A esses dois pontos, chamamos de antípodas.

Como funcionam?

A localização exata de um antípoda pode ser obtida por meio das coordenadas geográficas, importante recurso que utiliza do cruzamento de linhas imaginárias que cortam a Terra de forma horizontal e vertical – os paralelos e meridianos – respectivamente. Nesse sistema, os paralelos permitem obtermos uma medida em graus por meio da latitude ao mesmo tempo em que os meridianos nos fornecem a longitude também em graus. Qualquer localização na superfície terrestre pode ser obtida pela junção dessas duas medidas de referência.

Logo, um antípoda pode ser localizado utilizando do encontro entre o paralelo e o meridiano que passam pelo ponto onde o observador estiver. A latitude na localidade oposta, ou seja, o antípoda, será a mesma, embora numericamente negativa. Para corrigi-la, visto que não há coordenadas com números inferiores a zero, invertemos o hemisfério em questão: se o observador estiver no Hemisfério Sul, seu antípoda, em relação à latitude, estará no Hemisfério Norte e vice-versa.

Vamos utilizar de um exemplo prático. Tauranga, uma cidade localizada no litoral norte da Nova Zelândia, tem como referência a latitude de 37º 41’ S. A localidade terrestre que está do outro lado dessa cidade – o antípoda dela – pode ser obtida na latitude de 37º 41” N. Observe que apenas o hemisfério em questão foi substituído pelo oposto à primeira.

Já a longitude do antípoda pode ser obtida pelo suplemento do ângulo que corresponde ao ponto onde o observador está. Em outras palavras, a medida em graus necessária para chegarmos a 180º. Para compreender o processo: o antípoda de Tauranga, o qual já encontramos a latitude, pode ter a longitude encontrada subtraindo 180º da medida em graus da longitude da cidade neozelandesa. Como ela está localizada a 176º 10’ E, a diferença entre 180º e a referida medida corresponderá a 3º 49’, o que equivale a 3º 49’ longitude oeste.

Assim, no encontro entre 37º 41” N e 3º 49’ W estará o antípoda de Tauranga, que é a cidade de Los Villares, na Espanha.

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Los Villares, na Espanha, e Tauranga, na Nova Zelândia: situações opostas não apenas enquanto antípodas.

Outros antípodas

Embora os antípodas Tauranga e Los Villares sejam exatamente duas cidades, nem sempre encontramos essa coincidência entre outros pontos diametralmente opostos na superfície terrestre. Uma das características do planeta que explica esse fenômeno é a distribuição de terras submersas, muito superior à proporção de terras emersas, representadas por continentes e ilhas. Em outras palavras, com um volume de água equivalente a 71% do globo distribuído em oceanos, calotas de gelo, rios e lagos, é mais comum o antípoda de um ponto estar em pleno alto mar, do outro lado do planeta.

É o caso, por exemplo, de Belo Horizonte. O antípoda da capital mineira está localizado no Oceano Pacífico, a leste da China, ao sul do Japão e a nordeste das Filipinas. O ponto remoto está distante cerca de 100 quilômetros da ilha mais próxima, Okinotorishima, pertencente ao Japão. Ela, por sua vez, está a 1.560 quilômetros de Tóquio. As coordenadas do antípoda de Belo Horizonte podem ser obtidas a partir daquelas da cidade brasileira: a 19º 57’ 58” S e 43º 57’ 47” W, o ponto diametralmente oposto está a 19º 49’ 01” N e 136º 12’ 13” E.

Assim como Belo Horizonte, boa parte dos antípodas a partir do Brasil encontra-se no Oceano Pacífico. No entanto, algumas áreas em Mato Grosso e no sul do Pará estão opostas às Filipinas, tal como a capital desse país, Manila. Localizada a 14º 35’ N e 121º 00’ E, ela tem como antípoda parte do município de Tangará da Serra, a 185 quilômetros de Cuiabá. Além das Filipinas, parte das ilhas que compõem a Indonésia encontram seus antípodas em trechos de Rondônia e do Amazonas, assim como a ilha de Bornéu, onde está localizado outro país, o Sultanato de Brunei.

Já o litoral da China está diametralmente oposto a boa parte dos territórios da Argentina e do Chile. Hong Kong, por exemplo, tem o seu ponto mais alto, a montanha de Tai Mo Shan como antípoda da cidade de La Quiaca, localizada na fronteira entre a Argentina e a Bolívia. Só a distância em linha reta entre as duas localidades pela superfície terrestre equivale a 19.993 quilômetros, um percurso que nem mesmo aviões de grande porte e alcance conseguem realizar sem ao menos uma escala de reabastecimento. Também podemos encontrar como antípodas as cidade russa de Ulan Ude e os arredores de Puerto Natales, no Chile, e Palembang e Neiva, localizadas na Indonésia e na Colômbia, respectivamente.

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A América do Sul tem vários antípodas concentrados no Sudeste Asiático ou mesmo na Sibéria, mais ao norte do mesmo continente. O Brasil corresponde às Filipinas, identificadas em amarelo na projeção à esquerda, diametralmente opostas a trechos das nossas regiões Centro-Oeste e Norte, assim como a ilha de Bornéu, que é antípoda de parte da Floresta Amazônica. Observe ainda a ilha de Sumatra, na Indonésia, acompanhando o litoral do Equador e da Colômbia também na projeção à esquerda.

Além desses países, trechos no norte, oeste e sul espanhóis têm a Nova Zelândia como antípoda, tal como o já citado exemplo entre Tauranga, no país da Oceania, e a espanhola Los Villares. Outros antípodas entre os dois países são o lago Coleridge e a cidade de La Coruña, as cidades de Masterton e Segóvia, além de Auckland e Sevilha, cidades cujas coordenadas de referência estão separadas por uma pequena distância, quando consideramos as duas localizações diametrais.

Os polos Norte e Sul, localizados nas extremidades terrestres, também são reconhecidamente antípodas entre si.

Antípodas homônimas

Há ainda outra curiosidade que ganha destaque quando visualizamos como antípodas os dois pontos em questão. Um trecho pertencente à cidade de Formosa, na Argentina, localizado a 25º 02’ S e 60º 02’ W, tem como seu ponto diametralmente oposto à capital de Taiwan, Taipei, cidade cujas coordenadas são 25º 02’N e 121º 38’E. Mas onde está a coincidência entre essas duas localidades?

Embora Taiwan seja o nome oficial do país, que também é conhecido como República da China, a ilha em que ele está localizado foi batizada como Formosa por navegadores portugueses quando a avistaram pela permitira vez ainda no Século XVI. Até meados do Século XX, boa parte da literatura ocidental ainda apresentava Taiwan pelo nome de Formosa, apesar de o primeiro termo passar a ser usado ainda em 1684 pelos habitantes chineses da ilha.

Ficou curioso? Acesse esse site e descubra quais são e onde estão os antípodas em todo o mundo.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
GROTZINGER, John. e JORDAN, Tom. “Para entender a terra”; Porto Alegre. Bookman, 2013.
SHEPERD, John R. “Statecraft and Political Economy on the Taiwan Frontier, 1600–1800”;   Stanford. Stanford University Press, 1993.
SIMIELI, Maria Elena R.S. “Geoatlas”; São Paulo. Ática, 2006.

Internet no celular – As alegrias e tristezas que ela proporciona

por Fábio Silva

Entenda sobre os estados de sua conectividade, que muitas vezes te salvam do tédio na fila de espera, mas, em outras te consomem de ansiedade na espera por enviar aquela mensagem tão importante!

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O advento da internet é indubitavelmente a mais bem sucedida ferramenta dentre todos os âmbitos da tecnologia, influenciando as mais variadas esferas da humanidade. Paralelamente a esse fator, o crescimento exponencial da telefonia auxiliou a estreitar ainda mais os caminhos da comunicação. O grande benefício se deu com a convergência da internet aos sistemas telefônicos, unindo o acesso a grande rede à mobilidade.

Dados e Fatos

O Ministério das Comunicações afirma que 55% dos brasileiros com 10 anos ou mais acessam a internet regularmente, o que totaliza 94,2 milhões de pessoas.  76% destes acessam com mais frequência a grande rede através do celular. Um bocado de gente, não? Haja Wi-Fi para manter todos conectados.

E quando a internet roteada não está presente, resta utilizar dados móveis providos pela sua operadora. Esta tecnologia está presente desde a primeira geração de celulares na década de 80, e mesmo sendo extremamente limitada, trilhou os caminhos para a consolidação que se vê hoje em dia.

E por falar nos dias de hoje, atualmente estamos transitando entre a segunda, a terceira e a quarta geração da telefonia, que são respectivamente chamadas de 2G, 3G e 4G. Vamos entender a qual dessas plataformas estão associados os símbolos que descrevem o sinal no seu telefone:

Geração 2G

Por ser a tecnologia mais antiga, é também a mais consolidada. Possui, portanto, a maior abrangência ou cobertura nos locais mais ermos. O 2G é na verdade utilizado para conversas telefônicas através do protocolo GSM (Global System Communications), que é base para qualquer telefone celular no mundo. Para o tráfego de dados, foram implantados o 2,5G e o 2,75G, que são padrões de transição para a tecnologia 3G.

  • Quando o símbolo G aparece em sua tela, você está utilizando o GPRS (General Packet Radio Service). Esse protocolo se refere ao 2,5G e pode transmitir dados a uma velocidade 114kbps. É considerado o cúmulo da lentidão no carregamento de páginas da web, mas como já dito, é a tecnologia com maior cobertura, abrangendo maiores áreas do Brasil.

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  • O símbolo E representa a tecnologia EDGE (Enhanced Data rates for GSM Evolution) e é uma evolução do 2,5G, chamado 2,75G. É um padrão de transição para o 3G, que pode alcançar uma média de velocidade de 400kbps.

Geração 3G

É a geração em que a maioria dos usuários de internet móvel se encontra. Essa terceira geração garante velocidade mínima de 200kbps.

  • Quando a sigla 3G é exibida, faz referência à tecnologia UMTS (Universal Mobile Telecommunications Service), base para a terceira geração. Alcança velocidade de até 2Mbps.
  •  O símbolo H é um dos desdobramentos do 3G, também chamado 3,5G. A sigla H vem do HSPDA (High-Speed Downlink Packet Access) e oferece velocidade de navegação de até 14Mbps, embora no Brasil os planos mais comuns sejam de 1Mbps.

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  • Quando o H está funcionando a todo vapor, isto é, com forte potência de sinal, seu símbolo se transforma para o H+, que é uma evolução do HSPDA. Essa tecnologia fornece velocidade de até 21Mbps.

Geração 4G

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O famoso 4G, também vista como LTE, é a onda do momento! Ainda está em implantação no Brasil, por isso dispõe de pouca cobertura. A tecnologia prevê tráfego de até 100Mbps. Essa geração está sendo implantada em frequência de 2.5GHz, que por ser relativamente alta, sofre grandes interferências com alterações climáticas e necessitam de muitas antenas de retransmissão de sinal. Uma alternativa para melhoria do 4G é sua ampliação para a  frequência de 700MHz, que ocorrerá quando o sinal analógico de TV ceder definitivamente esta faixa para as operadoras de telefonia.

Agora que você sabe sobre as “fases”da internet em seu celular, pode controlar suas emoções em relação a disponibilidade de rede em seu aparelho. Basta lembrar da “escadinha” em ordem crescente de velocidade: G → E → 3G → H → H+ → 4G.

Uma dica: Se quiser conferir melhor o tipo de rede móvel atual do seu android, basta ir em Configurações > Sobre o telefone > Status

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Fontes:
http://www.mc.gov.br/sala-de-imprensa/todas-as-noticias/telecomunicacoes/36981-acesso-a-internet-pelo-celular-triplica-no-brasil
http://olhardigital.uol.com.br/noticia/conheca-as-diferencas-entre-1g,-2g,-3g-e-4g/34225
http://canaltech.com.br/dica/internet/saiba-a-diferenca-entre-g-h-h-e-e-no-sinal-do-seu-smartphone/
https://www.oficinadanet.com.br/post/12466-o-que-significa-as-letras-e-g-h-h-e-3g-na-conexao-com-internet-movel
http://www.teleco.com.br/tutoriais/tutorialintlte/pagina_2.asp

Um pouquinho sobre Motivação

Por Henrico Barbosa

Um dos grandes problemas atuais é: como fazer para manter a motivação?

Muitas vezes começamos um projeto, profissional ou pessoal, cheios de ideias e energia, mas, eventualmente, nos encontrarmos no meio do caminho com uma vontade enorme de desistir! Os resultados parecem inalcançáveis, deixamos de enxergar os benefícios e daquele projeto e nos perguntamos: “Por que estou fazendo isso ainda?”.

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E o pior é que, muitas vezes, como na imagem acima, não temos nem ideia do quão próximo estávamos dos nossos objetivos. Isso é ainda mais dramático pois vivemos em um mundo que nos exige, cada vez mais, resultados mais rápidos e eficientes para problemas mais complexos.

O objetivo desse texto é falar um pouco sobre o que nos motiva. Vamos então falar primeiro sobre a motivação intrínseca. Ao contrário do que muitos pensam, não é o dinheiro ou uma recompensa material o meio mais eficaz para motivar uma pessoa. Existem estudos de caso que comprovam que, algumas vezes, esta abordagem até atrapalha o desempenho. De acordo com Daniel H. Pink, a motivação se baseia no tripé autonomia, maestria e propósito. Segundo o autor:

Autonomia: consiste no desejo em controlarmos nossas próprias vidas, realizando as tarefas do modo que julgamos o melhor e obtendo com isso uma sensação de prazer e felicidade.

Domínio: é o desejo de melhorarmos cada vez mais naquilo que fazemos. Quando temos a oportunidade de aprender constantemente significa que cada dia é diferente do outro, e todo dia seremos melhores do que no dia anterior.

Propósito: perceber onde nosso trabalho se encaixa dentro da organização dá sentido a ele, e torna possível notar como uma melhora no desempenho individual impacta no resultado final.

Há situações em que a culpa nem é do indivíduo, mas do ambiente em que ele se encontra como pode ser lido numa crítica feita por Adauto Braz em seu post “A universidade matou sua motivação”! Basta trocar “universidade” por “colégio” ou “empresa”, e o resultado é o mesmo: um ambiente com poucos estímulos ou desinteressante pode se tornar tedioso e, por isso, “matar” nossa motivação.

Mas, chega de problemas! Vamos às soluções, ou melhor, sugestões.

Cada indivíduo é único, portanto como se motivar depende mais do autoconhecimento do que de qualquer outra coisa. Pessoalmente, recomendo tirar um tempo para si mesmo, deixar anotado o tripé da motivação em algum lugar de fácil acesso, como o celular ou a carteira, e refletir sobre ele. Pergunte a si mesmo: “Onde se encontram a autonomia, o domínio e o propósito de meu projeto? Como posso lidar com eles?”.

Grandes empresas já entenderam como melhorar a produtividade de seus funcionários. A Google permite que seus empregados possam trabalhar em projetos pessoais, que o funcionário possa trabalhar de acordo com seu próprio horário e, mantém um espaço de lazer com vídeo games e poltronas confortáveis para que o seu funcionário possa “relaxar” no meio do expediente.

Outro exemplo é a Wikipedia. Onde já se viu acesso tão simples e rápido à informação, sendo que as pessoas atualizam as informações contidas no site por vontade própria, sem remuneração alguma?

Já pararam para pensar na qualidade e velocidade com que saem as legendas feitas por fãs de filmes, séries, livros, animes e jogos? Todas estas pessoas fazem o que fazem por vontade própria, apenas para se desafiar, para mostrar o que sabem, o quão capazes são ou apenas para compartilhar seus interesses com o maior número possível de pessoas. Essa atividade mostra fortes aspectos do tripé. Há autonomia, já que o projeto de tradução é controlado pelos próprios fãs. Há maestria, ao passo que os tradutores e editores aprimoram com cada projeto, podendo até praticar línguas estrangeiras. E propósito, ao compartilhar do próprio interesse com outros e divulgar seu trabalho.

Termino por aqui, espero que essas informações sobre motivação possa ajuda-los a encarar com outros olhos o ano escolar, o vestibular, trabalho, ou qualquer outra tarefa que venha pela frente.

Duvido que consigam colocar o tripé da motivação em prática!

desafio

Fontes:
http://fluindo.com/motivacao-3-0-de-daniel-h-pink/     Acesso em Março/2016
http://fluindo.com/daniel-pink-nova-motivacao/        Acesso em Março/2016
https://renangurgel.wordpress.com/2015/02/18/os-3-pilares-da-motivacao/ Acesso em Março/2016
https://www.youtube.com/watch?v=u6XAPnuFjJc     Acesso em Março/2016
https://medium.com/escola-pirata/a-universidade-matou-sua-motivação-5bc46f4f3d8e#.d6wutmmmj    Acesso em Março/2016
http://ideiasja.com.br/os-3-pilares-da-motivacao-e-como-alcanca-los/    Acesso em Março/2016

 

Prova de Química do ENEM 2013 corrigida!

Prova de Química do ENEM 2013 corrigida pela professora Iara Bolina! Para conferi-la, clique aqui.

 

Fontes:

Prova: http://download.inep.gov.br/educacao_basica/enem/provas/2013/caderno_enem2013_sab_amarelo.pdf

Gabarito: http://download.inep.gov.br/educacao_basica/enem/gabaritos/2013/dia1_amarelo.pdf

Os diferentes tipos de chuva

Por Eduardo Klein

“O mês de fevereiro de 2016 foi o mais chuvoso dos últimos 18 anos na cidade do Rio de Janeiro, de acordo com o sistema Alerta Rio da prefeitura. A última segunda-feira do mês, dia 29, bateu recorde em volume de chuva na capital, quando choveu 65,9 milímetros (69% do esperado para todo o mês de fevereiro de 2016). A média histórica do mês é de 95,2 milímetros.”

O trecho acima foi extraído de uma reportagem publicada pelo Portal UOL no último dia 01 de março e dá conta de um recorde no volume precipitado na capital fluminense em quase duas décadas de medições. Apesar do número expressivo em termos da quantidade de chuva durante um único mês, a cidade do Rio de Janeiro presenciou no referido momento parte da estação chuvosa a qual ela está submetida segundo o clima característico dessa região do país, o tropical atlântico.

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Temporal – registro da chuva que atingiu a cidade do Rio de Janeiro na semana em que o volume recorde de precipitação mensal foi verificado, em fevereiro de 2016. Fonte: Climatempo

Uma das marcas do regime tropical é a alternância de estações com relação às chuvas. O volume anual dessa forma de precipitação varia bastante conforme a localização espacial ao longo dessa faixa climática, sendo comum a presença de maior quantidade durante o verão e, por outro lado, uma estiagem característica ao longo do inverno, reconhecido, por exemplo, como a estação seca. No entanto, a conjunção de outros fatores de ordem natural tais como o relevo e a proximidade de grandes corpos d’água podem resultar em variações sob o clima tropical: é o caso do clima tropical de altitude e do clima tropical atlântico, esse característico do Rio de Janeiro.

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Comportamento climático – dados relativos à temperatura média e ao volume de chuvas durante 12 meses, coletados na cidade do Rio de Janeiro ao longo de três décadas ajudam na identificação do padrão característico do clima tropical atlântico. Observe a ligeira oscilação na curva em azul relativa à temperatura, além do maior e menor volume chuvoso, demarcados de forma clara no tracejado verde, correspondendo, respectivamente ao verão e ao inverno. Fonte: INMET

Assim, podemos encontrar nas localidades sob esse regime climático, além da variação entre uma estação marcada por períodos chuvosos e outros secos, uma menor oscilação de temperatura ao longo do ano se comparada a regiões mais interiorizadas no continente e, por consequência, afastadas do litoral.

Ao lado da temperatura, a precipitação pluvial é um dos elementos mais importantes utilizados na caracterização e definição do clima sobre uma determinada região no planeta. Porém, será que a chuva se apresenta sempre da mesma forma? Melhor dizendo, a formação desse tipo de precipitação ocorre da mesma maneira, independente do regime climático ou da localização no mundo? A resposta para essas perguntas é o que veremos a seguir.

Tipos de precipitação

Embora o processo de formação das gotas de chuva e o desenvolvimento de áreas de instabilidade envolvam mecanismos complexos, a meteorologia reconhece uma classificação de três diferentes possibilidades de precipitação pluvial. A principal referência, nesse caso, é a forma em que ocorre a elevação da parcela de ar responsável por originar a decorrente precipitação. Dessa forma, a chuva pode dividir-se entre os padrões convectivo, orográfico ou ainda frontal.

Além disso, vale ressaltar que ao lado da precipitação pluvial, a neve também contribui de forma significativa para o quantitativo precipitado da atmosfera, embora essa seja desconsiderada em regiões onde ela não ocorre, como aquelas cobertas pelo clima equatorial e em várias extensões na faixa do clima tropical. Associam-se ainda à precipitação outras formas líquidas ou congeladas, em suspensão ou não, como o nevoeiro, geada e o granizo, que ocorre em situações especiais.

 

Chuva convectiva

Essa forma de precipitação pluvial envolve uma parcela de ar que eleva-se a uma temperatura maior que a do meio ao redor dela e em decorrência ao aquecimento da superfície terrestre. À medida que essa ascensão ocorre, o ar vai diminuindo a temperatura e, consequentemente, resfria-se e condensa o vapor d’água, transformando-o na forma líquida. Essa dinâmica de elevação da parcela de ar favorece o desenvolvimento de nuvens de grande comprimento vertical e muito carregadas.

 

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Ciclo de uma tempestade – a representação destaca em três momentos as etapas características da precipitação convectiva, com destaque para a diferença de temperatura entre a parcela de ar e o meio, além da consequente extensão vertical da nuvem. Fonte: American Flyers

Uma vez que a precipitação de natureza convectiva tem início, ela se caracteriza como de intensidade elevada, mas de curta duração e, de certa forma, muito localizada: em uma grande cidade, por exemplo, esse último fator pode significar a ocorrência de chuvas em uma região, mas não em outra. Outra possibilidade de precipitação pluvial convectiva envolve pancadas de chuva dispersas e que são formadas quando uma parcela de ar fria, úmida e instável passa sobre uma superfície mais quente, ocasionando um grande diferencial de temperatura.

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Precipitação bem delimitada – ao lado da presença de nuvens de grande desenvolvimento vertical, da forte intensidade e curta duração, as chuvas convectivas também se caracterizam por se concentrarem em áreas de extensão bem restrita, como mostra a imagem. Fonte: Eduardo Klein

De forma geral, a chuva convectiva pode ser acompanhada de relâmpagos ou mesmo granizo, sendo mais comuns nos períodos mais quentes do ano. Além disso, ela tem maior incidência nos climas equatorial e tropical, em áreas com altas taxas de evaporação e de evapotranspiração e em condições atmosféricas favoráveis à instabilidade.

 

Chuva orográfica

Diferentemente da elevação do ar favorecida pela diferença de temperatura, característica da precipitação convectiva, as chuvas orográficas decorrem de uma barreira física para ascenderem-se e precipitarem. É o caso de serras ou montanhas dispostas ao longo do percurso das correntes de ar. A partir do momento em que essas passam sobre áreas de relevo mais acidentado, a parcela é forçada a elevar-se. Ao mesmo tempo em que esse processo leva à condensação do vapor d’água, ele induz a mesma parcela à precipitação para que ela prossiga atravessando a região elevada.

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“Chuvas de relevo” – a presença de elevações no terreno e a interação dessas com o deslocamento das massas de ar são duas das características do ambiente propenso às chuvas orográficas. Fonte: Southern Utah University

Com isso, a tendência é a de chover de maneira mais intensa em apenas um dos lados de uma serra ou montanha, uma vez que o outro irá receber a massa de ar já com pouca ou capacidade de precipitação, diminuindo a probabilidade de uma precipitação de volume semelhante à ocorrida no lado oposto. Essas duas áreas são denominadas como barlavento – mais úmida – e sotavento como a vertente com tendência a um caráter mais seco. As chuvas convectivas ainda se apresentam com fraca intensidade, mas transcorrem por longos períodos, ao contrário das chuvas convectivas.

Outro fator de relevância nesse caso é o fato de quanto mais instável for a atmosfera local, o efeito orográfico tende a aumentar a quantidade de chuva e também a distribuí-la em uma área maior ao longo da encosta. Vale ressaltar que o grau de influência da barreira topográfica sobre esse tipo de precipitação dependerá, entre outros, de sua altimetria e o seu posicionamento relativo às correntes de ar.

 

Chuva frontal

Por sua vez, as chuvas frontais surgem do encontro entre duas massas de ar com características opostas, sendo uma formada por ar quente e a outra por ar frio, situação que também resulta na formação de uma frente contínua, variando entre um a 100 quilômetros de extensão e com duração de uma a 24 horas.

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Encontro de frentes – observe a dinâmica entre as massas de ar favorecendo a elevação da parcela mais quente e mais leve para camadas acima daquelas ocupadas pela frente fria e mais densa. Fonte: Ministério da Aeronáutica, adaptado por Geografia e História Envolvente

Durante esse fenômeno, as duas massas de ar não chegam a misturar de forma imediata após chocarem entre si. O processo envolve uma dinâmica própria que faz com que a camada mais quente e menos densa consiga elevar-se sobre a massa de ar fria. Assim como nas demais formas de ascensão do ar, ele resfria-se à medida que aumenta a altitude, condensando o vapor d’água e gerando as primeiras precipitações. A consequente instabilidade, marcada por uma chuva de caráter contínuo – variando entre seis e oito horas de duração – e intensidade moderada costuma abranger uma área extensa durante o deslocamento da frente.

Além da ascensão da parcela de temperatura mais elevada que a segunda frente envolvida na formação de chuvas frontais, outro mecanismo está  presente nesse mesmo processo. Trata-se do chamado gradiente de pressão, que promove diretamente o deslocamento das duas massas de ar diferentes entre si e acaba por favorecer o contato entre ambas.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AYOADE, J. O. Introdução à Climatologia para os trópicos. 8. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002. 332p.

BARRY, R. G.; CHORLEY, R. J. Atmosfera, tempo e clima. 9. ed. Porto Alegre: Bookman, 2013. xvi, 512p.

INSTITUTO NACIONAL DE METEOROLOGIA – INMET: Normais Climatológicas – Brasil – de 1961 a 1990. Ministério da Agricutura e Reforma Agrária – Departamento Nacional de Meteorologia.

 

SITES CONSULTADOS

Instituto Nacional de Meteorologia

Instituto Nacional de Pesquisas Aeroespaciais

Marinha do Brasil
Climatempo

Southern Utah University

American Flyers

Geografia e História Envolvente

Portal UOL

Prova de Física da Concomitância Externa do CEFET-MG de 2015 corrigida!

Prova de Física da Concomitância Externa do CEFET-MG de 2015 corrigida pelo professor Henrico Reis! Para conferi-la, clique aqui.

 

Fontes

Prova: http://www.copeve.cefetmg.br/galerias/arquivos_download/2015_1-prova-CE-Subsequente.pdf

Gabarito: http://www.copeve.cefetmg.br/galerias/arquivos_download/2015_1-Gabarito_CE_Subsequente.pdf