Por trás de símbolos e cores, padronização e história: uma viagem pelo mundo das bandeiras nacionais

Por Eduardo Klein

Listras e faixas, estrelas ou brasões. Em todo o mundo, um dos elementos mais representativos dos países é a bandeira. Não apenas entre as nações! Estados, municípios, condados e outras estruturas regionais que variam de país para país também podem contar com bandeiras próprias, aumentando consideravelmente o número dessas em uso e circulação.

 

Embora a proposição e a criação de bandeiras se alternem de acordo com a legislação aplicada em cada país, os padrões que dizem respeito ao design e à construção, propriamente dita, dos também chamados pavilhões, ganharam uma área própria de estudos em 1957. Trata-se da Vexilologia, que buscou em um prefixo originário do latim e correspondente à bandeira – vexillum – um termo que abrangesse a análise e discussão sobre o simbolismo, uso e história de bandeiras em todo o mundo.

 

Desde então, a Vexilologia passou a ser o centro dos estudos relacionados a bandeiras nacionais ou institucionais, históricas ou não, concentrando-se em uma entidade em nível global, a Federação Internacional de Vexilologia (ou Fédération Internationale des Associations Vexillologiques – FIAV). Ela, por sua vez, agrega outras 52 associações igualmente dedicadas a desenvolver um conhecimento científico sobre os tipos, formas e funções das bandeiras em todo o  mundo.

 

Elementos que estruturam uma bandeira

Uma vez que a Vexilologia aborda o estudo das bandeiras, por vexilologista entende-se o responsável por desenvolver graficamente esse tipo de representação. No processo de criação de uma bandeira, ele utiliza de uma série de elementos visuais organizados em categorias observando, ainda, um conjunto de denominações voltado ao futuro emprego da peça. Elas se dividem em 19 tipos que, combinados ou não, relacionam-se ao uso terrestre ou marítimo e em nível civil, institucional governamental ou público, somado ainda ao uso militar. Essa normatização foi desenvolvida pelo professor Whitney Smith, a quem também se atribui a criação do termo Vexilologia

 

Entre os outros padrões em uso estão as Cruz Simétrica, Cruz Grega e Cruz Escandinava, variando a formato cruzado quanto à proporção e disposição na bandeira. Há ainda o chamado Chevrons, caracterizado por um triângulo posicionado à esquerda, o Pall e o Saltire, ambos com formas geométricas próprias. Outros exemplos são as variações retangulares na vertical, chamado de Pales ou o Fesses, com bandeiras organizadas em faixas horizontais:

Bandeira1Bandeira2

Vale ressaltar que entre os 195 países do mundo, mais da metade das bandeiras foram criadas com base nos padrões retangulares Pales, Fesses e Chevrons, além de duas variações desses três formatos, a bend, caracterizada por um corte na diagonal, e pavilhões de duas cores com uma divisão no centro. São exemplos desses as bandeiras da Tanzânia e da Papua Nova-Guiné, como bends, e as bandeiras da Polônia e de Angola, no fesses de duas cores, dividida ao meio.

As bandeiras, em extensão, podem obedecer também a sete padronizações de organização como o Badge, representado pelo uso de símbolos como brasões ou escudos de armas; o Charge, cuja característica é possuir uma figura; além do Emblem, que indica o uso de um símbolo mais representativo do país ou entidade em questão. Várias bandeiras como a do Uruguai, dos Estados Unidos e da Austrália, por exemplo, usam do recurso chamado Canton, em que o desenho quadrangular da bandeira é dividido em quatro partes, sendo que uma delas será mais destacada, usualmente o quadrante ao alto e à esquerda:

bandeira3
PADRONIZAÇÃO – Exemplos de Badge, Charge, Emblem e Canton: Albânia, Alasca, Argélia e Uruguai, respectivamente, da esquerda para a direita.

Em alguns casos dois ou mais padrões podem se combinar dando forma a uma só bandeira. Além de pavilhões que representam um único país, há aqueles em que a união de dois ou mais formam um só organismo como é o caso do Reino Unido, cuja bandeira oficial representa a junção daquelas dos países que o integram: Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte. No entanto, note que essa última não serviu de base, graficamente, para a constituição da Union Jack, como é chamada a bandeira do Reino Unido:

Bandeira4

Formatos, símbolos e cores

Apesar de apenas o Nepal possuir uma bandeira que não segue o padrão quadrangular tradicional, os demais 194 países do mundo seguem esse formato geométrico, porém, com proporções variadas em sua medida. Considerando o padrão 1:1, no qual a largura da bandeira será igual ao comprimento, dados da FIAV apontam como a escolha mais comum o padrão 2:3, adotado por 86 países, seguido do 1:2, presente em 54 bandeiras de estados nacionais. O formato 1:1, por sua vez, só foi adotado por duas nações, na mesma quantidade que o formato 7:11. A bandeira do Brasil, por exemplo, segue a proporção 7:10, ao mesmo tempo em que a bandeira de Andorra, pequeno país situado entre a França e a Espanha.

bandeira5
PROPORÇÃO – Observa a variação na área proporcional entre essas bandeiras. Da esquerda para direita: Vaticano (1:1), Portugal (2:3), Nova Zelândia (1:2) e o Nepal (0:820). O padrão usado em Portugal é o mais comum em todo o mundo, seguido do 1:2 adotado pelo país da Oceania.

 

Outros pontos em comum entre o grande número de bandeiras nacionais ocorre na simbologia e nas cores usadas em cada pavilhão. Uma estatística entre os 195 países do mundo aponta que o símbolo mais dominante é a estrela. Em conjunto, num padrão organizado, como na China, ou  refletindo diferentes constelações, tal como ocorre na bandeira do Brasil, ou mesmo com uma única estrela – adotado em Israel e Gana – o uso de estrelas é destaque em 60 bandeiras, ou seja, aproximadamente 31% dos países.

Escudos ou brasões nacionais, prática comum entre nações europeias como Portugal, San Marino e Moldávia, além de países em diversos pontos do mundo como o México, na América do Norte; Moçambique, na África; e Fiji, na Oceania, representam a segunda categoria mais comum na simbologia em bandeiras. Já o uso de cruzes, seguindo ou não os formatos genéricos Simétrico, Grego ou Escandinavo, está presente em 18 pavilhões de nações independentes, embora se repita com mais frequência em territórios ou possessões de outros países, ainda sem autonomia, como é o caso das Ilhas Falkland (Malvinas), pertencentes ao Reino Unido, e a ilha de Niue, que integra o território da Nova Zelândia.

Os corpos celestes são elementos comuns, sobretudo entre países de maioria muçulmana. Malásia, Tunísia e Turquia possuem a representação da Lua na fase Crescente, uma simbologia venerada no Islã, em suas bandeiras. No entanto, Arábia Saudita e Irã, por exemplo, adotaram símbolos próprios, igualmente ligados à cultura local, eminentemente islâmica, sem recorrer ao uso do Crescente nos pavilhões. Por outro lado, a representação do Sol encontra-se de forma variada em bandeiras de países como a Argentina, Japão e a Namíbia.

Além disso, uma análise geral de todos os pavilhões nacionais revela uma utilização de combinações de cores que se repetem de forma aleatória ou mesmo coordenada segundo blocos de países que levam em consideração fatores como a religião. De forma mais ampla, nota-se uma predisposição para o uso do vermelho, azul, verde e branco como cor básica, totalizando, respectivamente, 31, 28, 11 e oito países. Além disso, entre as combinações de cores, destacam-se a adoção do trio vermelho-branco-azul, muito comum entre países europeus, tais como a Holanda, França e Rússia, bem como a gama entre preto, vermelho, branco e verde, presente em nove países concentrados no Oriente Médio e na Ásia Central.

Com relação à primeira combinação, um ponto em comum são os países de origem eslava que adotam, ao mesmo tempo, bandeiras semelhantes do ponto de vista das cores e no padrão fesses, buscando nos pavilhões valorizar a herança étnico-linguística. A escolha dos tons de azul, branco e vermelho remonta ao Congresso Eslavo de Viena, realizado em 1848, e que oficializou a bandeira de base à causa, inspirada naquela do Império Russo e hoje retomada pela atual Rússia, pós-União Soviética. As cores do Pan-eslavismo também foram a marca maior da Iugoslávia, cujo nome significa união dos povos eslavos. Dos países que surgiram após a fragmentação dela, metade decidiu não manter o padrão fesses e as mesmas cores nas respectivas bandeiras: Bósnia Herzegovina, Montenegro e Macedônia.

Bandeira6.png
PAN-ESLAVISMO – Embora o padrão de cada bandeira não seja o mesmo, os países eslavos buscaram nas cores do movimento Pan-eslavismo um esforço de identidade que se vê hoje nas bandeiras de alguns países no leste europeu.

 

Outro grupo de países que possuem bandeiras com cores combinadas são os do mundo árabe, influenciados diretamente pelos pavilhões de dois movimentos separatistas na região. O primeiro deles foi Revolta Árabe contra o Império Otomano, em 1916. À ocasião, os líderes criaram uma bandeira usando quatro cores ligadas a grupos de poder locais séculos antes. Dessas, a mais simbólica é o preto, cor da bandeira de Maomé, mas também utilizada pelos califados de Rashidun e dos Abbasidas. O verde representou o Califado de Fatimid ao passo que o Califado de Umayyad tinha a bandeira predominantemente branca. Já o vermelho simbolizava a bandeira dos Khawarij, embora durante o levante também se relacionasse à dinastia Hashemita, hoje no poder na Jordânia por meio do Rei Abdullah II.

Anos depois, em 1952, uma revolução no Egito visando a derrubada do poder do Rei Faruq, reformas na constituição em vigor e o fim da ocupação inglesa na região, com o reforço de um crescente sentimento nacionalista e de união entre os povos árabes, teve como símbolo a Bandeira de Liberação Árabe. Ela manteve as cores representativas da Revolta de 1916, mas além de eliminar o verde, atribuiu ao preto, ao branco e ao vermelho os significados de opressão histórica por nações estrangeiras, o futuro da região e o sacrifício para uma transição pela independência, respectivamente. Essa nova padronização influenciou a bandeira de países como o próprio Egito, Iêmen, Iraque e Síria, que chegaram a substituir os antigos moldes por pavilhões inspirados na antiga causa.

bandeira7
PRIMEIRO MOMENTO – A criação de um estado árabe que se estenderia da atual Síria até o Iêmen, no sul da Península Arábica, estava entre os objetivos da Revolta Árabe de 1916. Apesar de ele não ter sido viabilizado, vários países que hoje integram a mesma região adotaram as cores desse levante, em um paralelo aos anseios de uma integração.

 

Bandeira8
SEGUNDO MOMENTO – Vários países optaram por readaptar as bandeiras em uso a partir de 1952, adotando pavilhões com as cores da Bandeira de Libertação Árabe, símbolo da Revolução Egípcia no mesmo ano, o que reacendeu o espírito do pan-arabismo no Oriente Médio e, no caso do Egito, ao Norte da África.

 

Outros movimentos em caráter internacional e que defendem a união em bloco de diferentes países mas que guardam semelhanças e pontos em comum na matriz étnico-linguística, histórico ou mesmo cultural, tais como o pan-africanismo, também têm as bandeiras em combinações de cores semelhantes, sendo cada uma com significados próximos. Nesse último caso, a opção é pelo vermelho, verde e amarelo, presente na maior parte dos países da África-subsaariana, tais como Gana, Etiópia e Camarões e em algumas ilhas no Caribe. São Cristóvão e Nevis é um desses exemplos.

E se os continentes tivessem bandeiras?

O estúdio ferdio, especializado em design gráfico, desenvolveu um projeto sobre as atuais bandeiras em uso pelos países e, unindo os elementos mais comuns na padronização do desenho e simbologia nelas empregada, propôs a criação de cinco bandeiras relativas aos continentes da América do Sul e América do Norte – integrando a essa os países da América Central e Caribe – África, Ásia e Europa. O resultado mostra uma combinação interessante que se assemelha à maior parte dos padrões de bandeiras nacionais reunidas de maneira continental:

bandeiras9.png
Adaptado de: ferdio

Dos 55 países africanos, o estúdio contabilizou 25 emblems na forma de estrelas – o que pode ser encontrado nas bandeiras de Togo e da Somália, por exemplo – com o predomínio do padrão fesses de três faixas na horizontal. Com a maior parte dos países também adotando a combinação de vermelho, verde e amarelo, correspondendo ao pan-africanismo, a hipotética bandeira da África se assemelharia à de Gana, localizada no mesmo continente.

Uma análise de o que seria a bandeira da Ásia aponta para a grande quantidade de países de maioria muçulmana no continente, tais como a Indonésia, que o ocupa o posto de maior nação islâmica do mundo, além daqueles nas regiões do Oriente Médio e da Ásia Central,  onde, respectivamente, a Arábia Saudita e o Irã são grandes expoentes das correntes Sunita e Xiita. Tal contexto é evidenciado pela simbologia do Crescente, disposta em sete bandeiras da região, e de uma ou mais estrelas, encontradas em outras 15. Assim como a África, o padrão mais comum são as faixas horizontais em fesses.

Já o continente americano, subdividido politicamente entre as américas do Sul, do Norte e Central, associada às ilhas caribenhas, foi representado em dois grupos. Aquele dedicado às 13 nações da América do Sul ganhou uma bandeira em que os traços predominantes remontam ao que o estúdio denominou como “Miranda”. Trata-se da combinação entre amarelo, azul e vermelho, no padrão fesses, facilmente vista nas bandeiras da Colômbia, Equador e Venezuela, e que estão ligadas ao revolucionário venezuelano Francisco de Miranda, precursor de Simon Bolivar no processo de independência de boa parte das antigas colônias espanholas no continente no Século XIX. A esse padrão, segue o uso de uma estrela como emblem, correspondente aos pavilhões do Brasil, Chile, Suriname, Venezuela, em maioria ante ao uso de badges ou brasões, como na Bolívia e no Equador.

A América do Norte – aqui englobando a América Central e o Caribe – tem uma bandeira no padrão pales, com faixas na horizontal, apresentando-se com uma característica marcante entre os pavilhões da América Central: a combinações azul-branco-azul, como pode ser encontrada nas bandeiras de El Salvador, Guatemala e Honduras. México e o Canadá também apresentam o mesmo padrão, porém em outras cores. A simbologia empregada, com um badge, buscou unificar outros elementos comuns entre as bandeiras dos 22 países, como a presença de listras.

Comum entre 17 bandeiras dos 48 países europeus, o padrão fesses foi o escolhido pelo estúdio para representar o continente. A ausência de símbolos, característica presente em 20 bandeiras que apresentam ou não as faixas horizontais, também é marca da bandeira europeia, com as cores na combinação vermelho-branco-azul. Essas podem ser vistas nos pavilhões da Croácia, França, Eslováquia, Eslovênia, Holanda, Inglaterra, Islândia, Luxemburgo, Noruega, República Checa, Rússia e Sérvia.

A oceania contaria com uma bandeira marcada pelo canton com a Union Jack, bandeira do Reino Unido, simbolizando a atuação de exploradores britânicos na região sobretudo no Século XVIII. Cinco dos atuais países independentes da região foram possessões de Londres até que ganhassem autonomia e se separassem do domínio da Coroa. Desses, quatro ainda mantém as bandeiras o canton britânico: Austrália, Fiji, Nova Zelândia e Tuvalu. Outra característica encontrada no pavilhão da Oceania são estrelas ordenadas segundo diferentes intenções: Austrália, Nova Zelândia, Papua Nova-Guiné e Samoa têm a constelação do Cruzeiro do Sul como símbolo nacional. Por outro lado, os Estados Federados da Micronésia, Ilhas Marshall, Ilhas Salomão e Tuvalu dispuseram estrelas indicando a quantidade de ilhas e atóis presentes em cada um de seus territórios. Já Nauru usa uma estrela de 12 pontas simbolizando o mesmo número de tribos que habitavam inicialmente o país, restrito a uma só ilha. Ao todo 64% das bandeiras do continente, entre a Australásia, Melanésia, Micronésia e Polinésia, tem estrelas como recurso simbólico.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CASTRO, Iná Elias de. Geografia e Política: território, escalas de ação e instituições. Rio de Janeiro. Bertrand Brasil. 2005. 298p.
DENSON, J. BACHELLER, M.A., et al. The Five Worlds of Our Lives: ingredients and results of war and revolution. A Geohistory. New York City. Newsweek, Inc. & C.S. Hammond & Co., Inc., 1961. 320p.
SIMIELLI. Maria Elena Ramos. Geoatlas: edição reformulada e atualizada. São Paulo. Editora Ática, 2006. 168p.
SMITH, Dan. O atlas do Oriente Médio: o mapeamento completo de todos os conflitos. São Paulo. Publifolha, 2008.144p.
ZNAMIEROWSKI, Alfred. The World Encyclopedia of Flags: the definitive guide to international flags, banners, standards and ensigns. Leicester. Lorenz Books, 2013. 256p.
SITES CONSULTADOS
Central Intelligence Agency – The World Factbook
Estúdio ferdio – Continent Flags
Federação Internacional de Associações Vexilológicas
Flags of the World
Organização das Nações Unidas
Portal de Governo da República Árabe do Egito
Portal de Governo da República Árabe da Síria
Portal de Governo da Comunidade da Australia
Portal de Governo da Nova Zelândia – The NZ flag: Your chance to decide
Portal de Governo da República de Nauru
Portland Flag Association – “Finalists” for New Fiji Flag
Anúncios

4 comentários em “Por trás de símbolos e cores, padronização e história: uma viagem pelo mundo das bandeiras nacionais

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s